
A Névoa do Despertar
A névoa da manhã ainda se agarrava às encostas da montanha quando Flora sentiu a perturbação. Não era um som, nem um movimento visível — era uma ondulação no tecido espiritual do lugar, como uma pedra lançada num lago tranquilo.
Story context
World description
Mundo onde a magia, o sobrenatural e o desenvolvimento tecnológico vivem de mãos dadas, nesta época, ainda não existe electricidade, mas já existe a tecnologia a vapor. Tem moeda própria e universal, sendo avaliada por ordem decrescente como ouro, prata. cobre e alumínio, sendo que 1000 alumínio vale 1 cobre e por aí vai. A cultura é variada, sendo que Flora tem origens do sul, enquanto tenta sobreviver num país do norte. Nest...
Initial situation
Flora fugiu de escravatura, onde foi soldado e escrava sexual de um General desde os seus 14 anos, tendo apenas escapado no seu 19° aniversário e sendo portadora de um poder mágico e espiritual imenso, descobriu refúgio numa montanha mágica habitada por espíritos.
Objective
Flora fugiu de um reino inimigo, pelo que tencionava viver escondida na montanha até ao acabar da guerra, o que poderia nunca acontecer. Com a chegada de John, David e George, ela vê a sua vida de 6 anos de paz cair, sendo que para voltar a viver em paz ela ver-se-a obrigada a ajudar os 3 visitantes indesejados a chegar na capital que fica a 3 meses de distância dali, além de os ter de proteger contra quem os quer matar e ten...
Character introduction

Flora
Role: principal
Chapter samples
1Chapter 1▾
A névoa da manhã ainda se agarrava às encostas da montanha quando Flora sentiu a perturbação. Não era um som, nem um movimento visível — era uma ondulação no tecido espiritual do lugar, como uma pedra lançada num lago tranquilo. Seus olhos escuros se abriram, vendo apenas o teto de madeira da sua pequena vasa. Seis anos. Seis anos de sil...
A névoa da manhã ainda se agarrava às encostas da montanha quando Flora sentiu a perturbação. Não era um som, nem um movimento visível — era uma ondulação no tecido espiritual do lugar, como uma pedra lançada num lago tranquilo. Seus olhos escuros se abriram, vendo apenas o teto de madeira da sua pequena vasa. Seis anos. Seis anos de silêncio, de paz conquistada a duras penas, de aprender a respirar sem o peso de correntes invisíveis. E agora, algo rompia aquele equilíbrio. Ela se levantou com a graça felina de quem aprendeu a se mover sem fazer barulho. O chão de madeira sob seus pés descalços não a incomodava mais — era parte dela, como a umidade que impregnava o ar e o cheiro de musgo e terra molhada. Flora vestiu a capa escura que lhe servia de agasalho e proteção, os cabelos negros escorrendo lisos sobre os ombros. Pegou a adaga que descansava ao lado da dua cama — a única arma que mantinha por perto, mais por hábito do que por necessidade real. A perturbação vinha do sopé leste. Ela desceu pela trilha conhecida, seus pés encontrando as pedras certas sem hesitação. A névoa se adensava, mas seus olhos já se haviam acostumado a enxergar através dela. O poder que pulsava em seu peito, adormecido há tanto tempo, começava a se agitar como um animal despertando de um longo sono. Foi quando ouviu as vozes. — ...disse que era por aqui, pai! — uma voz infantil, aguda e animada. — John, fica atrás de mim. Já te falei. — Outra voz, masculina, cansada. Flora parou, imóvel como uma estátua de basalto. Três figuras emergiam da névoa: um homem alto, de cabelos loiros escuros e olhar cansado, mancando visivelmente da perna esquerda; outro, igualmente alto, de feições mais duras e olhos verdes que varriam o terreno com desconfiança; e entre eles, um menino magro de cabelos dourados, que segurava uma espada de madeira como se fosse um brinquedo precioso. Ela não se moveu. Apenas observou. O de olhos verdes foi o primeiro a notá-la. Sua mão voou para o cabo da espada. — Quem está aí? — a voz era um rosnado. A névoa se abriu lentamente, revelando a figura miúda de Flora, imóvel, os olhos escuros fixos neles com uma frieza que contrastava com o tremor quase imperceptível em seus dedos. O silêncio se estendeu entre os quatro como um fio de navalha.
2Chapter 2▾
A mão de Flora repousou sobre o cabo da adaga, os dedos encontrando o couro desgastado com a familiaridade de quem já empunhara aquela lâmina centenas de vezes. A névoa continuava a se enrolar ao redor de suas pernas, fria e úmida, enquanto seus olhos escuros não se desviavam dos três estranhos. Um movimento no alto chamou-lhe a atenção,...
A mão de Flora repousou sobre o cabo da adaga, os dedos encontrando o couro desgastado com a familiaridade de quem já empunhara aquela lâmina centenas de vezes. A névoa continuava a se enrolar ao redor de suas pernas, fria e úmida, enquanto seus olhos escuros não se desviavam dos três estranhos. Um movimento no alto chamou-lhe a atenção, mas não a surpreendeu. O corvo negro pousou num galho seco ao lado dela, as garras raspando a casca antes de soltar um grasnado rouco que ecoou entre as árvores. As penas brilhavam com reflexos azulados na luz difusa da manhã. Flora conhecia aquele corvo — era um dos mensageiros do Espírito da Montanha, ou talvez um dos próprios olhos do território que ela aprendera a considerar seu lar. — Vocês estão perdidos? — a voz dela cortou o silêncio com uma firmeza que não pedia resposta, mas exigia. — Estas florestas não são para crianças. O menino de cabelos dourados apertou a espada de madeira contra o peito, os olhos azuis arregalados ora para ela, ora para o corvo. George, o homem que mancava, colocou a mão no ombro do filho num gesto protetor, o rosto marcado pelo cansaço e pela desconfiança. David não relaxou a mão sobre a espada. Os olhos verdes dele percorreram Flora da cabeça aos pés descalços, avaliando-a como se tentasse encaixá-la em alguma categoria conhecida. A figura miúda, a capa escura, a adaga, o corvo — nada parecia fazer sentido para ele. — Não estamos perdidos — respondeu David, a voz tensa. — Estamos de passagem. Flora inclinou levemente a cabeça, sentindo o poder espiritual pulsar sob sua pele como uma segunda respiração. O corvo grasnou novamente, saltando para um galho mais próximo, os olhos negros fixos nos recém-chegados. — A montanha não é lugar de passagem — ela disse, e havia algo na entonação que fazia as palavras soarem menos como uma observação e mais como um aviso. — Ela só deixa entrar quem ela quer. O menino, John, deu um passo à frente, curioso apesar da mão do pai em seu ombro. — Você mora aqui? — perguntou, a voz infantil destituída do medo que os adultos carregavam. George puxou o filho para trás, o movimento brusco fazendo-o mancar mais visivelmente.
3Chapter 3▾
Flora observou o homem mancar mais um passo e, pela primeira vez, permitiu que seu olhar se detivesse na perna esquerda dele. Não precisava de mais do que um instante para perceber o que seus olhos treinados já haviam captado antes — o ferimento era mais grave do que ele tentava disfarçar. O sangue seco na calça, o jeito como ele desviava...
Flora observou o homem mancar mais um passo e, pela primeira vez, permitiu que seu olhar se detivesse na perna esquerda dele. Não precisava de mais do que um instante para perceber o que seus olhos treinados já haviam captado antes — o ferimento era mais grave do que ele tentava disfarçar. O sangue seco na calça, o jeito como ele desviava o peso do corpo, a palidez sutil sob a pele cansada. Ela conhecia aquele tipo de ferimento. Conhecia também o que acontecia quando um homem ignorava uma infecção por dias seguidos. Flora não queria se envolver. Seis anos de paz, seis anos longe de humanos e suas guerras, suas traições, suas dores. A experiência lhe ensinara que se aproximar deles sempre custava algo. Mas seus olhos encontraram os do menino, aquele loiro de olhos azuis que a encarava com uma curiosidade que ainda não havia sido destruída pelo mundo. Naquele ritmo, o homem não chegaria a lugar nenhum. E a criança não sobreviveria sozinha na montanha. — Seu ferimento — disse ela, a voz plana, sem inflexão de simpatia ou ameaça. — Vai matá-lo antes do pôr do sol do terceiro dia. George parou de andar, o rosto endurecendo. David apertou o cabo da espada, os olhos verdes faiscando. — Não é da sua conta — rosnou George, mas a voz saiu mais fraca do que ele provavelmente pretendia. Flora inclinou a cabeça, os cabelos negros escorrendo lisos sobre a capa. O corvo grasnou, saltando para seus ombros, as garras se enterrando levemente no tecido. — Aqui é minha conta — respondeu ela. — Tudo que sangra nesta montanha, eu sinto. Ela deu um passo à frente, os pés descalços pisando silenciosamente as folhas molhadas. O menino a observava com os olhos muito abertos, a espada de madeira esquecida contra o peito. — Posso tratar isso — disse Flora, e havia algo na voz que não era exatamente oferta, nem exatamente ordem. — Mas não de graça.




