
O Legado do Relógio Quebrado
A névoa de vapor sibilante envolve seus tornozelos enquanto você desce do trem aéreo na plataforma de Urbis, a última das cidades suspensas. O ar cheira a metal aquecido e óleo de mamona queimado, um perfume familiar que já não te causa estranhamento depois de três meses vivendo aqui.
Story context
Initial situation
The story is "steampunk" themed. The name of the start setting starts with a "U".
Character introduction

Nicole
Role: protagonista ela é uma assistente que ajuda em qualquer coisa
Chapter samples
1Chapter 1▾
A névoa de vapor sibilante envolve seus tornozelos enquanto você desce do trem aéreo na plataforma de Urbis, a última das cidades suspensas. O ar cheira a metal aquecido e óleo de mamona queimado, um perfume familiar que já não te causa estranhamento depois de três meses vivendo aqui. Você ajusta o colarinho do seu casaco de couro, sentin...
A névoa de vapor sibilante envolve seus tornozelos enquanto você desce do trem aéreo na plataforma de Urbis, a última das cidades suspensas. O ar cheira a metal aquecido e óleo de mamona queimado, um perfume familiar que já não te causa estranhamento depois de três meses vivendo aqui. Você ajusta o colarinho do seu casaco de couro, sentindo o peso da pequena ferramenta de ajuste que sempre carrega no bolso interno. O Mercado das Engrenagens ferve de atividade nesta hora da manhã. Relojoarias expõem seus mecanismos mais complexos em vitrines de vidro fumê, enquanto vendedores ambulantes gritam ofertas de parafusos temperados e molas de liga de cobre. Você desvia de um homem que carrega uma gaiola com pombos mecânicos, suas asas de latim batendo num ritmo imperfeito que precisa de calibração. O chamado veio cedo demais. O bilhete que encontraram debaixo da sua porta esta manhã tinha apenas um endereço gravado em papel encerado: Torre do Relógio Quebrado, 7º andar. Urgente. Sem assinatura, sem explicação. Mas na cidade de Urbis, você aprendeu que perguntas demais são um luxo que poucos podem pagar. Você sobe as escadas em espiral da torre, seus passos ecoando no metal vazado dos degraus. O relógio no topo realmente está quebrado — seus ponteiros congelados marcando 3:47, um detalhe que ninguém se deu ao trabalho de consertar. Talvez porque consertá-lo revelaria algo que preferem manter escondido. No sétimo andar, uma porta de ferro enferrujado range ao seu toque. A sala é pequena, abarrotada de mapas desbotados e instrumentos de navegação cobertos de poeira. Uma única lâmpada a gás projeta sombras dançantes nas paredes. E no centro da sala, sobre uma mesa de carvalho arranhado, repousa um objeto que faz seu coração acelerar. Um diário. Aberto na página central, com uma caligrafia que você reconheceria em qualquer lugar. Sua mão treme ao tocar as páginas amareladas. A última vez que viu aquela letra foi há cinco anos, quando seu pai desapareceu sem deixar vestígios. As palavras parecem ter sido escritas com pressa, o traço irregular: Nicole, se estiver lendo isto, significa que não consegui voltar. O segredo do Urbis não é o que pensam. Não confie no Conselho dos Relojoeiros. Eles sabem o que fizemos. Eles sabem o que você pode fazer. Você ouve passos pesados subindo as escadas. Muitos passos. Vozes abafadas, ordens sussurradas em tom de urgência. Não há outra saída além da janela, que dá para um abismo de duzentos metros até os bairros inferiores.
2Chapter 2▾
Os passos ecoam lá embaixo, cada vez mais próximos, e você sente o pânico apertar sua garganta. Mas antes que possa decidir entre a janela e a porta, um som agudo e metálico corta o silêncio da sala. O telefone. Ele está sobre a mesa, enterrado sob pilhas de papéis amarelados, um aparelho antigo de latim e cobre com o fone pendurado no ...
Os passos ecoam lá embaixo, cada vez mais próximos, e você sente o pânico apertar sua garganta. Mas antes que possa decidir entre a janela e a porta, um som agudo e metálico corta o silêncio da sala. O telefone. Ele está sobre a mesa, enterrado sob pilhas de papéis amarelados, um aparelho antigo de latim e cobre com o fone pendurado no gancho. Ele toca insistentemente, o som vibrando no ar carregado de poeira. Sua mão ainda treme ao largar o diário e alcançar o telefone. Você ergue o fone, a voz do outro lado sai distorcida pelos circuitos de vapor: — Nicole? Graças aos céus, consegui te encontrar. É a voz da sua mãe, mas não como você lembra. Está fraca, arrastada, como se cada palavra exigisse um esforço imenso. — Mãe? O que aconteceu? — Estou no hospital, querida. Não é nada grave, mas... os médicos querem que eu fique em observação. Preciso que você venha. O mundo parece parar por um instante. Cinco anos sem notícias do seu pai, e agora sua mãe doente. Você aperta o fone com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos. — Estou indo — você responde, a voz firme apesar do coração disparado. — Me dá vinte minutos. Desliga antes que ela possa responder. Os passos na escada estão mais próximos agora, mas você não pode mais ficar aqui. Fecha o diário com um movimento rápido e o enfia dentro do casaco, ao lado da ferramenta de ajuste. Você corre até a janela, abrindo as venezanas de ferro. O abismo se estende lá embaixo, mas seu olhar encontra o que procura: uma viga transversal que liga a torre ao prédio vizinho, a três metros de distância. Uma passagem estreita, mas suficiente. Enquanto os passos param do lado de fora da porta, você já está com um pé no parapeito, o vento frio de Urbis bagunçando seu cabelo. A porta range, prestes a ceder.
3Chapter 3▾
O ar frio de Urbis corta seu rosto enquanto você salta, o corpo esticado no vazio. Suas mãos encontram a viga de ferro, o impacto vibrando nos ombros, e você se pendura por um instante antes de balançar o corpo para frente, caindo de joelhos no telhado do prédio vizinho. Você não olha para trás. Levanta e corre. Os telhados de Urbis se ...
O ar frio de Urbis corta seu rosto enquanto você salta, o corpo esticado no vazio. Suas mãos encontram a viga de ferro, o impacto vibrando nos ombros, e você se pendura por um instante antes de balançar o corpo para frente, caindo de joelhos no telhado do prédio vizinho. Você não olha para trás. Levanta e corre. Os telhados de Urbis se estendem como uma engrenagem enferrujada, chaminés soltando fumaça negra contra o céu cor de cobre. Você desce por uma escada de incêndio, salta sobre um beco estreito, e em poucos minutos está nas ruas da cidade, misturada à multidão de operários e vendedores ambulantes. O hospital pode esperar. Primeiro, você precisa de respostas. A cafeteria "O Engrenagem" fica na esquina da Rua dos Parafusos, uma fachada modesta de tijolos e vidro embaçado. Você empurra a porta, o sino tilintando, e encontra Nicolas na mesa do fundo, como sempre. Ele ergue os olhos quando você se senta, a preocupação estampada no rosto jovem. — Nicole. Você está viva. — Ele desliza uma xícara de chá quente na sua direção. — Meu pai me contou. Sua mãe... — O que houve com ela? — Você interrompe, a voz seca. — Você sabe de alguma coisa. Nicolas hesita, os dedos tamborilando na mesa de madeira. Ele baixa a voz. — Meu pai disse que ela está em estado grave. Muito grave. E que não foi uma doença, Nicole. Alguém fez isso com ela. O mundo ao redor parece desacelerar. Você aperta a xícara, o calor queimando a palma da sua mão. — Eu sei quem foi — você murmura, os olhos fixos no chão de ladrilhos. — Minha prima. Nicolas franze a testa, surpreso. — A Clara? Mas ela... — Ela sempre quis o que é meu. Sempre esteve perto demais. — Você ergue o olhar, a determinação endurecendo seus traços. — Tenho certeza. Ele inclina o corpo para frente, a voz firme. — A gente não tem provas. Mas vamos achar. Juntos. O sino da porta tilinta novamente, e você sente um calafrio na nuca. Alguém entrou. Alguém que observa.




