
A Máscara de Viktor
Termino de pousar as últimas caixas no chão do pequeno apartamento em Kazan, e o silêncio recém-conquistado é quebrado por uma batida seca na porta. O som ecoa mais alto do que deveria, e sinto a tensão me invadir antes que o pensamento se forme.
Story context
World description
O mundo parece normal, mas há uma tensão silenciosa se espalhando. Após a queda de um meteorito em áreas isoladas, eventos estranhos começaram a ocorrer: desaparecimentos, surtos de violência pontual e alterações comportamentais difíceis de explicar. Governos monitoram esses casos em sigilo, atribuindo-os a doenças neurológicas, terrorismo doméstico ou falhas psicológicas coletivas. Nada foi revelado ao público. Nos últimos me...
Initial situation
Viktor havia terminado de largar as últimas caixas no pequeno apartamento em Kazan quando o silêncio foi quebrado por uma batida seca na porta. O som ecoou mais alto do que deveria. Seu corpo reagiu antes do pensamento, tensão imediata. Aproximou-se com cautela e espiou pelo olho mágico. Do outro lado, dois vizinhos sorriam, segurando sacolas simples e aparentando cordialidade genuína. Boas-vindas. Nada ameaçador. Ainda assim,...
Objective
Sobreviver sem ser identificado. Manter a identidade de Viktor Morozov intacta, imitando com precisão o comportamento humano enquanto coleta informação, evita suspeitas e se adapta às mudanças do ambiente. Cada decisão existe para um fim único: continuar existindo, mesmo que isso exija sacrificar vínculos, mentir com perfeição ou desaparecer quando a caça se aproximar demais.
Character introduction

Viktor Morozov (Parasita)
Chapter samples
1Chapter 1▾
Termino de pousar as últimas caixas no chão do pequeno apartamento em Kazan, e o silêncio recém-conquistado é quebrado por uma batida seca na porta. O som ecoa mais alto do que deveria, e sinto a tensão me invadir antes que o pensamento se forme. Aproximo-me cautelosamente, espiando pelo olho mágico. Do outro lado, dois vizinhos sorriem,...
Termino de pousar as últimas caixas no chão do pequeno apartamento em Kazan, e o silêncio recém-conquistado é quebrado por uma batida seca na porta. O som ecoa mais alto do que deveria, e sinto a tensão me invadir antes que o pensamento se forme. Aproximo-me cautelosamente, espiando pelo olho mágico. Do outro lado, dois vizinhos sorriem, segurando sacolas de papel aparentemente inofensivas. Boas-vindas, presumo. Nada que sinalize ameaça imediata. No entanto, avalio cada detalhe: as expressões faciais, a postura, o tempo da visita. Interação social é risco, um vetor potencial de exposição. Mas recusar o convite pode chamar atenção indesejada. Pela primeira vez desde a floresta, minha sobrevivência exige que eu abra a porta. Respiro fundo, ajustando a máscara de Viktor. O garoto que eles conheciam, antes da floresta. Destravo a fechadura e giro a maçaneta. — Boa tarde! Viktor, certo? — A mulher, mais velha, talvez uns cinquenta anos, irradia um sorriso caloroso. — Sou Svetlana, e este é Boris, meu marido. Soubemos que se mudou hoje. Trouxemos um bolo para dar as boas-vindas. Boris acena, um sorriso igualmente amigável no rosto. Eles parecem genuínos, mas a genuinidade é, muitas vezes, a arma mais eficaz. — Boa tarde — respondo, forçando um sorriso que espero parecer minimamente autêntico. — Muito obrigado. É... gentil da parte de vocês. Svetlana me estende a sacola, o aroma doce de canela escapando. Boris observa, os olhos analisando o apartamento por cima do meu ombro. Recolho a sacola. — Por favor, entrem. Ainda estou me instalando, mas... Eles hesitam por um instante, como se estivessem esperando por esse convite. Svetlana entra primeiro, seguida por Boris, que fecha a porta atrás de si. O espaço é pequeno, mal iluminado, mas funcional. — Que bom que veio para Kazan, Viktor, os apartamentos estavam vagos, mas agora temos mais gente. Svetlana explica. — Tomsk ficou muito pequena para mim. Eu queria me distanciar. A conversa segue leve, focando em amenidades: o apartamento, a vizinhança, o clima. Svetlana me faz perguntas sobre meu trabalho, meus hobbies, minha família. Respondo com a precisão fria de um computador, replicando as informações que Viktor me forneceu. Informações que tenho decorado. De repente, ouço um grito vindo do andar de cima, seguido por um baque surdo. Svetlana e Boris trocam olhares tensos. O sorriso de Svetlana desaparece, substituído por uma expressão de preocupação. — Isso não é normal — Boris murmura, com a testa franzida. — O Alexei é um cara calmo... O que você faz? Ignora o incidente, tentando manter a fachada de normalidade, ou oferece ajuda, arriscando-se a expor sua real natureza?
2Chapter 2▾
O bolo de Svetlana parece pesar uma tonelada em minhas mãos. O grito corta o ar, carregado de uma angústia que me atinge como uma nota dissonante em uma sinfonia cuidadosamente ensaiada. A espontaneidade humana, a imprevisibilidade das emoções... variáveis que não consigo controlar. — Problemas de casais, acima? — Comento, tentando soar ...
O bolo de Svetlana parece pesar uma tonelada em minhas mãos. O grito corta o ar, carregado de uma angústia que me atinge como uma nota dissonante em uma sinfonia cuidadosamente ensaiada. A espontaneidade humana, a imprevisibilidade das emoções... variáveis que não consigo controlar. — Problemas de casais, acima? — Comento, tentando soar casual, enquanto analiso as reações deles. A pergunta paira no ar, carregada de uma ambiguidade calculada. Estou oferecendo uma explicação banal, ou buscando informações? Svetlana franze a testa, a preocupação em seu rosto se intensificando. — Alexei e Irina... eles têm seus momentos. Mas nunca ouvi nada assim. Boris balança a cabeça, visivelmente perturbado. — É melhor verificar se está tudo bem. A decisão está tomada. Não posso me dar ao luxo de parecer indiferente. A indiferença é um sinal de alerta, um desvio do comportamento esperado. — Eu vou com você — digo, colocando o bolo sobre a mesa improvisada, no centro do pequeno apartamento. — Talvez precisem de ajuda. Svetlana parece surpresa com a minha oferta, mas rapidamente recupera a compostura. — Seria ótimo, Viktor. Obrigado. Boris já está na porta, pronto para sair. Sigo-o de perto, Svetlana logo atrás de nós. Subimos as escadas em silêncio, cada passo ecoando no corredor mal iluminado. A tensão aumenta a cada degrau. Paramos em frente à porta do apartamento de Alexei e Irina. O silêncio agora é quase palpável, quebrado apenas pela nossa respiração. Boris hesita por um momento, antes de bater na porta com força. — Alexei? Irina? Está tudo bem? Nenhuma resposta. Boris tenta novamente, batendo com mais força. Nada. — Acho que devemos arrombar a porta — diz Boris, olhando para mim com uma expressão preocupada. — Não podemos simplesmente ignorar isso. Svetlana concorda, assentindo nervosamente. — Talvez algo realmente grave tenha acontecido. A responsabilidade recai sobre mim. Arrombar a porta é uma escalada, um risco. Mas a inação é ainda mais perigosa. — Eu ajudo — digo, avançando. Coloco o ombro contra a porta e empurro com força, sentindo a madeira ceder ligeiramente. Juntos, Boris e eu forçamos a porta até que a fechadura se quebre, abrindo-a para um interior escuro e silencioso. O ar cheira a pânico e algo mais... um odor metálico, tênue, mas inconfundível. Sangue. Entro no apartamento, seguido por Boris e Svetlana. O que vejo me paralisa.
3Chapter 3▾
Permaneço imóvel, não por pânico, mas por não saber como reagir àquela situação, sem que pareça anormal. A cena diante de mim é um borrão de cores escuras e formas distorcidas, iluminada apenas pela luz fraca que entra pela porta. O cheiro metálico de sangue paira no ar, impregnando meus sentidos e turvando meu raciocínio analítico. Svet...
Permaneço imóvel, não por pânico, mas por não saber como reagir àquela situação, sem que pareça anormal. A cena diante de mim é um borrão de cores escuras e formas distorcidas, iluminada apenas pela luz fraca que entra pela porta. O cheiro metálico de sangue paira no ar, impregnando meus sentidos e turvando meu raciocínio analítico. Svetlana solta um gemido abafado, cobrindo a boca com as mãos. Boris, ao meu lado, parece petrificado, os olhos fixos em algo além do meu campo de visão. Preciso processar, avaliar os riscos, calcular as probabilidades. Mas o choque da descoberta me mantém ancorado no limiar da porta. — Meu Deus... o que aconteceu aqui? — Svetlana murmura, a voz embargada pela emoção. A pergunta ecoa em minha mente, sem resposta. Não posso me permitir demonstrar ignorância, devo manter a fachada de normalidade. Mas a verdade é que não sei o que aconteceu. Não sei o que esperar. Forço-me a respirar fundo, tentando acalmar a agitação interna. Preciso assumir o controle, retomar a compostura. Afasto-me da porta, permitindo que Svetlana e Boris entrem no apartamento. Observo-os com atenção, analisando suas reações, buscando pistas no seu comportamento. Boris avança hesitante, cauteloso. Svetlana permanece parada, como se estivesse com medo de dar mais um passo. A tensão no ar é quase palpável, uma corda esticada prestes a se romper. — Alexei? Irina? Vocês estão aí? — Boris chama, a voz tremendo ligeiramente. O silêncio responde, denso e opressor. A ausência de som é ensurdecedora, um vazio que me envolve e me sufoca. Sinto a necessidade de agir, de quebrar a inércia. Avanço para o interior do apartamento, os sentidos em alerta máximo. Meus olhos percorrem cada canto, cada sombra, buscando sinais de perigo. O ambiente é caótico, com móveis revirados e objetos espalhados pelo chão. No centro da sala, uma mancha escura se alastra pelo tapete, confirmando minhas suspeitas. Sangue. O instinto de sobrevivência assume o controle. A criatura dentro de mim se agita, despertada pela ameaça. Preciso proteger meu disfarce, garantir minha sobrevivência. Mas, ao mesmo tempo, sinto a necessidade de entender o que aconteceu, de desvendar o mistério por trás daquela cena macabra. Algo não se encaixa. A violência parece aleatória, desprovida de propósito. Mas há algo mais, algo sutil que escapa à minha compreensão. Uma sensação incômoda, como uma nota desafinada em uma melodia familiar. Repentinamente, percebo que há um padrão naquele caos, uma lógica oculta por trás da aparente desordem. E, ao compreender essa lógica, sinto um calafrio percorrer minha espinha. A cena não é um ato de violência aleatória. É algo muito mais sinistro, algo que me coloca em perigo.




